Contos para ler na chuva

Seleção de contos e prosa curta. Por Valter Nascimento.

Divider

Taxi

October 24, 2020

Um taxi para na porta de um prédio e o passageiro pede ao motorista que o espere. Espere aqui, não vou demorar, diz o passageiro. O motorista o olha pelo retrovisor. Peralá, como vou saber que você vai voltar? Vou voltar, estou indo ao aeroporto, tenho um voo marcado, mas antes preciso resolver rapidamente uma coisa, deixo aqui minha mala, diz o passageiro. O taxista olha pelo retrovisor a mala sobre o banco. Era um golpe antigo, a mala, no fim das contas, poderia estar vazia. O motorista conta ao passageiro a história do golpe, o passageiro medita. Quer que eu abra a mala?, diz. Mas o golpe havia sido aprimorado. Uma mala cheia de roupas velhas, livros velhos, qualquer coisa, ou mesmo uma mala roubada de outra pessoa. O carro não é meu, se tomo prejuízo tenho eu mesmo que pagar ao dono, diz o motorista de modo extremamente gentil. Faz sentido, diz o passageiro enquanto abre a carteira, tome, vou deixar isso como garantia. Estica nas mãos uma nota de cem, mas o valor mal cobre a corrida até ali, até o aeroporto seriam pelo menos mais duas notas daquela. O passageiro estica então duas notas de cem. O motorista faz menção de pegá-las, olha para o prédio, depois para o passageiro através do retrovisor e recusa. Veja bem, eu não sei o que vai fazer lá dentro, não quero me meter em encrenca, o carro não é meu, desça e peça outro taxi depois, sim? Não há telefones celulares, não há aplicativos. Pegar um taxi significa confiar na sorte e tudo isso acontece no meio da madrugada. O passageiro sente o peso das horas. Olha para o relógio, olha para o prédio e depois para o motorista através do retrovisor. Então desça comigo, vai ser coisa rápida. O motorista acha isso absurdo. Como poderia deixar o carro parado naquele local deserto? Como poderia entrar num prédio com um desconhecido? Meu Deus, o que eu posso fazer?, diz o passageiro. O motorista repete o mesmo discurso, diz que o carro não é seu, que golpes são aplicados a toda hora. Os minutos passam, o taxímetro corre, os números dobram de tamanho, os carros passam pelo carro parado, o passageiro olha o relógio, para as notas de cem, para a mala, para os olhos do motorista pelo retrovisor. E então outra história começa a correr por baixo desta. Um passageiro entra, indica o caminho, o motorista segue. Espere aqui, não vou demorar, diz o passageiro da história e o motorista, que a essa altura não tem tamanha desconfiança, aceita de bom grado. O passageiro sai, vai até um prédio e entra. Os minutos passam, o taxímetro corre, os números dobram de tamanho, os carros passam pelo carro parado, o motorista olha o relógio, busca instintivamente a presença do passageiro no retrovisor. Olha para o prédio, para as janelas apagadas àquela hora da noite. O motorista pensa em descer e bater na portaria, mas não sabe o número, não sabe nada. Pensa em ir embora, aceitar o destino, mas e se o passageiro voltar? O taxímetro corre, os números dobram de tamanho e o carro não é seu. Se levar algum prejuízo ele mesmo deverá pagar ao dono. Não há como burlar o taxímetro. Na verdade há um jeito, um jeito arriscado, que envolve ter que pedir favores a um tipo que não lhe agrada muito. Burlar o taxímetro é caro, o motorista pensa nisso enquanto liga o carro e olha para o prédio através do retrovisor. Na outra história o passageiro entra. Seguem. Param. O passageiro diz: Espere aqui, não vou demorar, mas o motorista já sabe das coisas. O passageiro diz, Deixo aqui minha mala. O motorista pensa. Lembra da outra noite e inclui uma variante no roteiro. A mala está vazia. O passageiro abre a mala, ela está cheia, roupas dobradas, livros, um sapato, tudo parece em ordem. O passageiro desce. Os minutos passam, o taxímetro corre, os números dobram de tamanho, os carros passam pelo carro parado, o motorista olha o relógio, busca instintivamente a presença do passageiro através do retrovisor e observa a mala. O motorista desce, abre a porta do passageiro e abre a mala. Visto de perto não são as coisas do passageiro, roupas femininas metidas numa mala velha sem fecho. Um par de livros velhos, um sapato velho, coisas colhidas ao acaso. O motorista espera. Depois deixa a mala no meio fio e vai embora. O passageiro entra. Seguem. Param. O motorista recusa tudo com total certeza. O passageiro estende um maço de notas e diz, Deixo aqui minha mala. O motorista precisa do dinheiro, aquela é sua única corrida da noite e o valor cobria o trajeto até ali e ainda mais. Não importa o que o passageiro vai fazer no prédio, a grana vale o risco. O passageiro sai, entra no prédio. O motorista conta as notas, é realmente muito dinheiro. Olha para o retrovisor e encontra a mala. A presença silenciosa da mala e do dinheiro. Muito dinheiro. O taxímetro, os minutos. O motorista sai, abre a porta do passageiro e tenta abrir a mala. Está trancada. Tenta levantá-la, mas o peso é absurdo. É uma mala grande. No prédio uma janela se ascende. O motorista olha para o dinheiro, para a mala, para o relógio. Nem cinco minutos se passaram, está tudo bem, a janela está acesa, ele logo estará de volta. Mas a mala e o dinheiro lhe dizem que há algo errado, sim, algo muito errado. Ali, naquela rua escura, no meio da madrugada, tanto dinheiro e uma mala, uma mala que não se move sobre o banco. Passa um carro de polícia. O motorista está parado na calçada com o dinheiro nas mãos, olhando fixamente para a janela acesa. O policial para. O que há?, diz o policial. Não há nada, estou aguardando um passageiro, diz o motorista. O policial olha para o motorista, para o dinheiro dobrado em sua mão, olha para o carro e dentro do carro a mala. O que há na mala? As sirenes mudas iluminam a fachada do prédio. O motorista abre a porta do passageiro e aguarda na calçada. Entrou naquele prédio, ali, naquela janela acesa. E quando olham novamente para o prédio já não há mais nenhuma janela acesa. Enquanto o policial tenta abrir a mala o motorista pensa que nos fundos do prédio deve haver uma saída que dá para uma rua vazia. O curioso é que isso acontece apenas para o passageiro, que imagina uma história vivida pelo motorista onde ele mesmo, o passageiro, é o vilão. Não vamos afirmar que ele seja ou que não seja, mas quando pensamos que ele é um vilão, o quadro se torna duplamente estranho, pois ele imagina não apenas o seu crime mas também outras variantes desse crime, que vão desde do simples calote na corrida até a presença de uma mala com algo muito errado dentro. Então é correto pensar que em alguns desses cenários ele imagina a si mesmo tal como é, realizando uma tarefa que é típica dos vilões de sua categoria. Se o passageiro não é um vilão, então concluímos que ele tem lá certo dom para o assunto e que, apesar da pressa, consegue visualizar inúmeras versões de si mesmo e esse impasse é a chave para o seu destino. Podemos ainda pensar que o motorista é o vilão. O passageiro estende na mão as notas de cem, desce, vai até o prédio onde precisa pegar algo imprescindível para sua viagem. O passageiro separou-se da esposa, ou do marido, e naquele prédio está o apartamento onde viveram por longos anos. Sobre um armário baixo há um porta-retratos, um livro, ou um objeto sentimental qualquer que vale bem mais que todas aquelas notas de cem. O passageiro abre a porta do apartamento e o cheiro do lugar lhe traz novas recordações. Ele anda mais uma vez pelo apartamento, senta-se no sofá e fecha os olhos. É isso mesmo? Pergunta para si mesmo, é isso mesmo? A mala está feita, a passagem comprada, irá começar uma nova vida em outro lugar, com outro nome talvez, vestindo outras roupas, andando de outro modo, bebendo bebidas diferentes, fumando outros tipos de cigarros. Abre os olhos e pensa em levar o pequeno objeto como recordação, mas talvez não seja a melhor ideia. Estará para sempre atado àquele lugar, àquele cheiro e àquelas memórias, que pulsam na noite como um coração de um animal assustado, como um braseiro. Desiste da ideia, apaga a luz e sai. Do outro lado da rua o carro se foi. Pensa em chamar a polícia, em gritar por socorro. Perdeu a mala, o dinheiro. A passagem continua no bolso, ainda pode pedir outro taxi, mas é madrugada, não há celulares nem aplicativos. Talvez seja isso que a vida queira lhe dizer, que fique, que volte ao apartamento, feche a porta e deite, feche os olhos e durma e no dia seguinte recomece do zero sem ter saído de fato do mesmo lugar. O motorista foge, por medo da situação ou por pura vilania. De volta a parada dá a volta no banco do passageiro e observa a mala. A noite está paga com sobra. Abre a mala e encontra roupas novas, um sapato novo, um livro, um guia de uma cidade estrangeira. Volta para casa, deita na cama. Encontra no escuro a imagem do passageiro parado na calçada vazia sob a luz do poste. Nesse momento o passageiro e o motorista, cada qual em sua cama, olham para o teto e pensam: o que estou fazendo da minha vida ? Dormir é distrair-se do mundo . De costas na cama, na sombra, o passageiro se sente leve, muito leve, foi bom que o motorista fosse embora, que levasse aquela mala e aqueles planos juvenis de ir morar em outro país. Aquele era o seu lugar, o seu ninho e a vida, afinal, é boa. Dorme rodeado por uma calma nunca sentida. O motorista agora sente o peso da mala e do dinheiro, nenhum dos dois lhe pertence e a presença da mala significa que, de certa forma, o destino do passageiro agora é o seu. Como um sarcófago a mala repousa no canto escuro do quarto e o motorista chora. No dia seguinte o passageiro toma seu café no seu local favorito, conversa com conhecidos e resolve que precisa de novas roupas para começar uma nova vida. Vai até uma loja de roupas no centro, onde se vendem roupas de todos os tipos e escolhe aquelas que sempre quis usar. Volta caminhando até o prédio e ao colocar as sacolas no chão percebe do outro lado da rua a mala. Atravessa a rua buscando o carro e o motorista da noite anterior. Sobre a mala está um envelope grudado com fita transparente e dentro dele o dinheiro. O passageiro sente a presença dos bilhetes da viagem pulsando em seu bolso. O voo perdido poderia ser remarcado, o plano poderia ser refeito. A mala está ali. O dinheiro está ali. E do outro lado da rua o prédio. No sinal fechado, um taxi espera a luz verde. Ele e o motorista se olham. Se olham, se olham, se olham e o sinal logo, logo vai abrir.

Julien Tavernier

September 17, 2020

Ninguém jamais poderá vagas pelas ruas noturnas de uma cidade depois de Jeanne Moreau. Saiu da sessão de O ascensor ao cadafalso pensando na tristeza de jamais poder vagar por Paris em busca de um homem. Não em Belo Horizonte. Talvez no Rio, em São Paulo, mas não em Belo Horizonte. Era fim de tarde, hora em que as ruas ficam mornas e os carros entopem os sinais. Belo Horizonte era uma cidade triste, com uma agrura industrial, repleta de bares vulgares e supermercados Carrefour abertos 24 horas. Quem poderia sussurrar o nome de um amante ali? Não gostava de homens, gostava da ideia deles. De sua imprevisibilidade quando tentavam provar que eram mais homens que os outros. Isso era especial: a ideia de que há uma escala Richter de homens e que um gesto, um aceno, um não poderá rebaixa-lo a uma classe menor dos homens. Aquela melancolia pós-filme permanecia nela como um visco. Um romantismo barato e fresco, uma semente jamais geminada nas calçadas repletas de marcas de guia para cegos, bosta de cachorro, guimbas de cigarro. Valeria a pena amar um homem como Julien, assassino, burro, preso num elevador fumando no ar viciado, deixando pistas atrás de si como uma raposa na neve. O som de Miles Davis, as vitrines acesas, o capote encharcado na chuva, Julien, Julien . Alguns anos de cadeia deixariam seu rosto vincado, sua mão mais dura, seu hálito mais pesado. Entrou numa padaria. Por acaso você viu o Julien? A moça não entendeu.  Julien Tavernier, ele sempre vem aqui. A moça não soube o que dizer, voltou-se para a colega no caixa e perguntou Você conhece um tal Julien? Juliano? – ela repetiu o nome. A moça do caixa não conhecia. Ele vem aqui? Sim, disse ela. Como ele é? Ela deu a descrição exata de Maurice Ronet. Nossa, não sei quem é. Saiu rindo, queria vestir um capote para poder enfiar as mãos e sofrer. Coisa típica do tédio. Foi até a livraria Ouvidor, que começava a fechar as portas. A vendedora baixinha e de jeito agitado pendurada no alto da escada, organizando a sessão de política e história do Brasil editada em capas brilhosas pela editora Boitempo. Julien? Pareceu intrigada. Ela deu a descrição como no momento anterior. Olha, não me é estranho... será que é o moço que comprou uma Bíblia? Julien jamais compraria uma Bíblia, disse ela rindo. Mas veio aqui um tipo assim, comprou uma Bíblia, essa aqui. Ela segurou o livro com constrangimento., uma edição capa dura com letras douradas. Abriu numa lista de tribos de Israel, alguém virando estátua de sal, o rei Davi sitiando uma cidade. Chorou e riu, a atendente puxou-a até o canto e a fez sentar numa mesinha. Seu marido? Não! sou casada com um homem muito importante do ramo da construção civil. A atendente olhou-a nos olhos de modo compreensivo e sigiloso. Espere aqui. Foi ao balcão e remexeu nas notas. Voltou até a mesa onde a mulher alisava a Bíblia de modo vago. Veja só, 69,90, duas e quarenta e três da tarde, veja aqui o nome. Ela tomou a nota nas mãos e leu. No canto perto do valor e da bandeira Mastercard o nome: Julien Tavernier.

Compêndio de ideias para palavras em alemão

September 17, 2020

Aquele cheiro que fica na colher de silicone depois de muito uso. O ato de comprar inúmeros cadernos na esperança de começar novos projetos. Aquele sentimento quando ouvimos Isn't it a pity, do Harrison. Quando você compra um livro e começa a lê-lo imediatamente, sem enviá-lo para a pilha de futuras leituras. Quando você entra numa loja muito chique e sente que todos os vendedores sabem exatamente o quanto tem na sua conta bancária. Quando, numa viagem de carro, você enxerga a estrada em linha reta e uma música que você gosta toca no rádio, causando a sensação de que a vida é boa e tudo vai dar certo. O cheiro de roupa de cama limpa numa noite fresca. O gesto de se despedir de uma pessoa muito atraente colocando as mãos no bolso ou na nuca em sinal de desespero e tesão. A textura do grão de arroz de risoto no molar e o gesto da língua para descobrir se está bem cozido ou não está bem cozido. O ato de iniciar uma discussão imaginária durante o banho, mantendo o tom de voz extremamente baixo, pois você mora num prédio com a mesma acústica da Ópera de Sidney e não quer que seus vizinhos questionem sua integridade mental. O ato de deletar os apps de suas redes sociais e usar um navegador de internet para acessá-las de modo ainda mais estressante e constrangedor. Quando você tem uma ideia muito boa e ela some porque a outra pessoa ao seu lado não para de falar, mas você não pode interrompê-la de imediato, migrando assim para o limbo entre a ideia que estava em sua consciência e o que a pessoa está dizendo. A sensação de entrar no carro e não saber se fechou ou não a porta de casa. Quando você imprime sem querer uma página em branco e ela sai quente da bandeja. O gesto de pegar uma caneta tinteiro ou de escrita fina e fazer voltinhas elegantes no papel enquanto espera ao telefone. Quando a pilha do relógio de parede começa a falhar e o ponteiro de segundos arranca sem sair do lugar. O ato de passar por um link importante durante o feed e tentar voltar para lê-lo e acabar perdendo-o para sempre. A sensação de ler um livro que você julgava muito difícil e descobrir que o texto é absolutamente banal. O momento em que você vê de perto uma coisa muito antiga e pensa "essa é a coisa mais antiga que já vi". A textura de uma cédula de outro país. O cheiro da casa dos seus pais quando você vem como visita.

Pacote de dados

September 17, 2020

eu gostaria de falar com o senhor Carlos. é ele. Carlos, aqui é da companhia de telefonia, temos um plano imperdível para o senhor. agradeço, não tenho interesse. trata-se de um plano com 500 minutos de ligações locais, internet liberada, SMS, desconto num novo aparelho e além disso realmente não me interessa. o senhor terá três meses de descontos exclusivos, trata-se de uma promoção para poucos clientes selecionados e ainda muito obrigado, eu não o senhor terá passe exclusivo para qualquer época através de nosso serviço de viagem no tempo. olha, eu não tenho... como é? para habilitar a linha e ser transportado para qualquer época, basta enviar uma SMS para *0701; o senhor será direcionado para uma viagem no tempo com duração de 15 minutos. deixa ver se eu entendi. valores adicionais poderão ser cobrados de acordo com a franquia do seu plano, o senhor teria interesse? olha, eu silêncio senhor? sim esta é uma oportunidade única, poucos clientes terão acesso a esta tecnologia ainda em fase beta. tá bom, eu quero. aguarde um momento por favor. Beethoven senhor? sim. sua linha já está habilitada, obrigado pela atenção e tenha uma ótima tarde. barulho de teclado digite o ano que pretende visitar e data, em seguida clique em jogo da velha e digite o local. 14/07/1978 #Paris. clarão magnético materializou-se em meio a turba. fumaça, gritos, bandeiras antes que pudesse crer em seus olhos, um revolucionário cortou-lhe a garganta. mort au roi! no final do mês receberia um conta astronômica por uso excedente do pacote de dados.

HTML

September 17, 2020

Chovia sobre o viaduto do Chá. Cocei a barba e senti o vazio existencial lambendo meus pés. No meu Spotify Premium tocava Imagine Dragons. Letícia . Levantei inquieto e olhei sua em Paris colada na minha geladeira. Na Polaroide um bilhete: Une femme d’esprit est un diable en intrigue . Abri a geladeira, vi o tofu que ela gostava ao lado do húmus e do bacon de soja. Orfeu vendo Eurídice sumir entre termos e condições de sites de meditação guiada e listas de compras da Amazon. Conheci Letícia num encontro de veganos solteiros. Ela lia trechos do novo livro do Gregório e lançava malabares pro ar. Era especialista em biodança e conhecedora das marés — essa menina é brasa quente, pensei. Hoje passei em frente da nossa feira de orgânicos favorita. Nós dois tão cheios de sonhos. Intercâmbio em Londres, marcha contra Wall Street, protesto na Paulista. Tatuagem de tribal, cabelo em coque. Comprei pra você um fone da Beats e um Moleskine edição especial do Star Wars — aquele que você encheu de doodles de gatinhos rolando na lua e poesias inspiradas em Hilda Hilst. As coisas começaram a dar errado. Um dia você chegou cansada do protesto em prol dos Beagles martirizados pela indústria dos cosméticos, me olhou oblíqua e disse que queria dar um tempo. Eu estava fazendo nossa cerveja artesanal no pequeno laboratório que criamos na antiga área de lavar roupas e fiquei abismado. Você se disse cansada da nossa vida clichê, que vivíamos repetindo o que todo mundo fazia, que queria originalidade. Cocei a barba e dei um jeito. Cortei o cabelo, arrumei as malas e partimos para o Camboja. Foram duas semanas de reencontro com o nosso Eu. Apagamos nosso Facebook de casal, migramos para o Tumblr. Passei a ganhar dinheiro com vídeos motivacionais sobre Como Ganhar Dinheiro Viajando e Sem Nenhum Patrão. Você abriu um blog de moda no Medium com dicas de maquiagem eco-sustentável. Votamos na Marina, pichamos Gentileza-Gera-Gentileza na parede de um shopping em Osasco, transamos num elevador. Abandonei o estilo hipster e me tornei marombeiro. Você preparava meu Whey logo cedo, me acompanhava no supino, fazia minhas playlists cheias de David Guetta e Rihanna. Então um dia eu estava preparando minha babata doce com quinoa e você disse que queria mudar, que aquela vida de culto ao corpo não era uma vida feliz. Saí do Crossfit, comprei um livro de antropologia. Vendi tudo e fomos viver em ocas com os índios Macuxi em Roraima. Pescávamos, dançávamos para o sol, arrancávamos mandiocas com o poder de nossos músculos. Então um dia eu estava preparando o Caxiri e você chegou cansada da dança das cabaças e disse que queria mudar, que vivíamos uma vida muito excêntrica, que sentia saudades da cidade grande, dos carros, da livraria Cultura da Paulista. Logo agora que o Pajé havia me aceitado no grupo dos guerreiros nobres? Cocei o saco, peguei as coisas, coloquei tudo num embornal de couro de capivara e voltamos pra Sampa. Você foi trabalhar de atendente de telemarketing, eu voltei a estudar de noite enquanto trabalhava de de atendente no Burguer King. E então um dia eu estava tirando a Skol litrão do freezer e você veio… Fiz o MIT, abri uma hamburgueria com mais duas celebridades do meio corporativo da internet, lancei um disco de hip-hop, participei de um reality show. Você traduziu Ulysses de James Joyce pra Cosac Naify, montou Hamlet com atores da comunidade de Rio das Ostras, ganhou o Pulitzer. Compramos uma casa em Miami, votamos no Trump, fizemos uma suruba com o Slavoj Žižek num apartamento em Barcelona. Viramos poliamorosos, por seis meses experimentamos todas as penetrações possíveis com os mais diferentes parceiros. Lemos Kundera, nos assexuamos, passamos a comprar nas promoções da Black Friday grandes máquinas de suco natural da Polishop. Falimos. Perdemos nossos parceiros poliamorosos, os vinis edição limitada do Radiohead e os actions figures dos Cavaleiros do Zodíaco. Fui preso, passei seis anos em Curitiba. Criei uma facção criminosa dentro da cadeia, subornamos juízes, investimos no mercado de armas russas na guerra da Síria. Fugimos pra Venezuela. Saqueamos supermercados, apoiamos o neo-bolivarismo financiado pelo capital americano. Então você descobriu que a onda do momento era a singularidade. Fomos congelados, decupados, transformados em bites de computador e transcendemos a matéria. Nos tornamos virus de computador (todo dia fugindo como loucos das rondas do Avast e do AVG), corrente no Whatsapp, gif da Kim Kardashian. Viramos torrent de filme da Marvel, barra de pesquisa do Baidu, comentário racista, tweet e textão. Então um dia, no espaço além da matéria e do tempo, você disse que a vida sem corpo era muito sem graça. Eu girei meu código e... Nos perdemos entre algoritmos e democracias esfaceladas. Fomos canto de tela, cursor, fonte Arial tamanho 12, bloco de texto. Depois pixel, bites e bytes. Tendência flutuando nos comentários do G1, nas polêmicas das subcelebridades, no último episódio da série do momento. No purgatório binário, zero ou um, banhamos nossa ínfima matéria elétrica no mar do Ing e Yang. Isso até o momento em que o comando de algum nerd reclamando da vida nos trouxesse de novo ao mundo turbulento dos homens. ---