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Written by Contos para ler na chuva • September 17, 2020

Chovia sobre o viaduto do Chá. Cocei a barba e senti o vazio existencial lambendo meus pés. No meu Spotify Premium tocava Imagine Dragons. Letícia. Levantei inquieto e olhei sua em Paris colada na minha geladeira. Na Polaroide um bilhete: Une femme d’esprit est un diable en intrigue. Abri a geladeira, vi o tofu que ela gostava ao lado do húmus e do bacon de soja. Orfeu vendo Eurídice sumir entre termos e condições de sites de meditação guiada e listas de compras da Amazon.

Conheci Letícia num encontro de veganos solteiros. Ela lia trechos do novo livro do Gregório e lançava malabares pro ar. Era especialista em biodança e conhecedora das marés — essa menina é brasa quente, pensei.

Hoje passei em frente da nossa feira de orgânicos favorita. Nós dois tão cheios de sonhos. Intercâmbio em Londres, marcha contra Wall Street, protesto na Paulista. Tatuagem de tribal, cabelo em coque. Comprei pra você um fone da Beats e um Moleskine edição especial do Star Wars — aquele que você encheu de doodles de gatinhos rolando na lua e poesias inspiradas em Hilda Hilst.

As coisas começaram a dar errado.

Um dia você chegou cansada do protesto em prol dos Beagles martirizados pela indústria dos cosméticos, me olhou oblíqua e disse que queria dar um tempo. Eu estava fazendo nossa cerveja artesanal no pequeno laboratório que criamos na antiga área de lavar roupas e fiquei abismado. Você se disse cansada da nossa vida clichê, que vivíamos repetindo o que todo mundo fazia, que queria originalidade.

Cocei a barba e dei um jeito.

Cortei o cabelo, arrumei as malas e partimos para o Camboja. Foram duas semanas de reencontro com o nosso Eu. Apagamos nosso Facebook de casal, migramos para o Tumblr. Passei a ganhar dinheiro com vídeos motivacionais sobre Como Ganhar Dinheiro Viajando e Sem Nenhum Patrão. Você abriu um blog de moda no Medium com dicas de maquiagem eco-sustentável. Votamos na Marina, pichamos Gentileza-Gera-Gentileza na parede de um shopping em Osasco, transamos num elevador. Abandonei o estilo hipster e me tornei marombeiro. Você preparava meu Whey logo cedo, me acompanhava no supino, fazia minhas playlists cheias de David Guetta e Rihanna. Então um dia eu estava preparando minha babata doce com quinoa e você disse que queria mudar, que aquela vida de culto ao corpo não era uma vida feliz.

Saí do Crossfit, comprei um livro de antropologia.

Vendi tudo e fomos viver em ocas com os índios Macuxi em Roraima. Pescávamos, dançávamos para o sol, arrancávamos mandiocas com o poder de nossos músculos. Então um dia eu estava preparando o Caxiri e você chegou cansada da dança das cabaças e disse que queria mudar, que vivíamos uma vida muito excêntrica, que sentia saudades da cidade grande, dos carros, da livraria Cultura da Paulista.

Logo agora que o Pajé havia me aceitado no grupo dos guerreiros nobres?

Cocei o saco, peguei as coisas, coloquei tudo num embornal de couro de capivara e voltamos pra Sampa.

Você foi trabalhar de atendente de telemarketing, eu voltei a estudar de noite enquanto trabalhava de de atendente no Burguer King. E então um dia eu estava tirando a Skol litrão do freezer e você veio…

Fiz o MIT, abri uma hamburgueria com mais duas celebridades do meio corporativo da internet, lancei um disco de hip-hop, participei de um reality show. Você traduziu Ulysses de James Joyce pra Cosac Naify, montou Hamlet com atores da comunidade de Rio das Ostras, ganhou o Pulitzer. Compramos uma casa em Miami, votamos no Trump, fizemos uma suruba com o Slavoj Žižek num apartamento em Barcelona. Viramos poliamorosos, por seis meses experimentamos todas as penetrações possíveis com os mais diferentes parceiros. Lemos Kundera, nos assexuamos, passamos a comprar nas promoções da Black Friday grandes máquinas de suco natural da Polishop. Falimos. Perdemos nossos parceiros poliamorosos, os vinis edição limitada do Radiohead e os actions figures dos Cavaleiros do Zodíaco. Fui preso, passei seis anos em Curitiba. Criei uma facção criminosa dentro da cadeia, subornamos juízes, investimos no mercado de armas russas na guerra da Síria. Fugimos pra Venezuela. Saqueamos supermercados, apoiamos o neo-bolivarismo financiado pelo capital americano. Então você descobriu que a onda do momento era a singularidade. Fomos congelados, decupados, transformados em bites de computador e transcendemos a matéria.

Nos tornamos virus de computador (todo dia fugindo como loucos das rondas do Avast e do AVG), corrente no Whatsapp, gif da Kim Kardashian. Viramos torrent de filme da Marvel, barra de pesquisa do Baidu, comentário racista, tweet e textão.

Então um dia, no espaço além da matéria e do tempo, você disse que a vida sem corpo era muito sem graça. Eu girei meu código e...

Nos perdemos entre algoritmos e democracias esfaceladas. Fomos canto de tela, cursor, fonte Arial tamanho 12, bloco de texto. Depois pixel, bites e bytes. Tendência flutuando nos comentários do G1, nas polêmicas das subcelebridades, no último episódio da série do momento. No purgatório binário, zero ou um, banhamos nossa ínfima matéria elétrica no mar do Ing e Yang. Isso até o momento em que o comando de algum nerd reclamando da vida nos trouxesse de novo ao mundo turbulento dos homens.

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