Julien Tavernier

Written by Contos para ler na chuva • September 17, 2020

Ninguém jamais poderá vagas pelas ruas noturnas de uma cidade depois de Jeanne Moreau. Saiu da sessão de O ascensor ao cadafalso pensando na tristeza de jamais poder vagar por Paris em busca de um homem. Não em Belo Horizonte. Talvez no Rio, em São Paulo, mas não em Belo Horizonte.

Era fim de tarde, hora em que as ruas ficam mornas e os carros entopem os sinais. Belo Horizonte era uma cidade triste, com uma agrura industrial, repleta de bares vulgares e supermercados Carrefour abertos 24 horas. Quem poderia sussurrar o nome de um amante ali?

Não gostava de homens, gostava da ideia deles. De sua imprevisibilidade quando tentavam provar que eram mais homens que os outros. Isso era especial: a ideia de que há uma escala Richter de homens e que um gesto, um aceno, um não poderá rebaixa-lo a uma classe menor dos homens. Aquela melancolia pós-filme permanecia nela como um visco. Um romantismo barato e fresco, uma semente jamais geminada nas calçadas repletas de marcas de guia para cegos, bosta de cachorro, guimbas de cigarro. Valeria a pena amar um homem como Julien, assassino, burro, preso num elevador fumando no ar viciado, deixando pistas atrás de si como uma raposa na neve. O som de Miles Davis, as vitrines acesas, o capote encharcado na chuva, Julien, Julien. Alguns anos de cadeia deixariam seu rosto vincado, sua mão mais dura, seu hálito mais pesado.

Entrou numa padaria. Por acaso você viu o Julien? A moça não entendeu.  Julien Tavernier, ele sempre vem aqui. A moça não soube o que dizer, voltou-se para a colega no caixa e perguntou Você conhece um tal Julien? Juliano? – ela repetiu o nome. A moça do caixa não conhecia. Ele vem aqui? Sim, disse ela. Como ele é? Ela deu a descrição exata de Maurice Ronet. Nossa, não sei quem é. Saiu rindo, queria vestir um capote para poder enfiar as mãos e sofrer. Coisa típica do tédio.

Foi até a livraria Ouvidor, que começava a fechar as portas. A vendedora baixinha e de jeito agitado pendurada no alto da escada, organizando a sessão de política e história do Brasil editada em capas brilhosas pela editora Boitempo. Julien? Pareceu intrigada. Ela deu a descrição como no momento anterior. Olha, não me é estranho... será que é o moço que comprou uma Bíblia? Julien jamais compraria uma Bíblia, disse ela rindo. Mas veio aqui um tipo assim, comprou uma Bíblia, essa aqui. Ela segurou o livro com constrangimento., uma edição capa dura com letras douradas. Abriu numa lista de tribos de Israel, alguém virando estátua de sal, o rei Davi sitiando uma cidade. Chorou e riu, a atendente puxou-a até o canto e a fez sentar numa mesinha. Seu marido? Não! sou casada com um homem muito importante do ramo da construção civil. A atendente olhou-a nos olhos de modo compreensivo e sigiloso. Espere aqui. Foi ao balcão e remexeu nas notas. Voltou até a mesa onde a mulher alisava a Bíblia de modo vago. Veja só, 69,90, duas e quarenta e três da tarde, veja aqui o nome. Ela tomou a nota nas mãos e leu.

No canto perto do valor e da bandeira Mastercard o nome: Julien Tavernier.