Taxi

Written by Contos para ler na chuva • October 24, 2020

Um taxi para na porta de um prédio e o passageiro pede ao motorista que o espere. Espere aqui, não vou demorar, diz o passageiro. O motorista o olha pelo retrovisor. Peralá, como vou saber que você vai voltar? Vou voltar, estou indo ao aeroporto, tenho um voo marcado, mas antes preciso resolver rapidamente uma coisa, deixo aqui minha mala, diz o passageiro. O taxista olha pelo retrovisor a mala sobre o banco. Era um golpe antigo, a mala, no fim das contas, poderia estar vazia. O motorista conta ao passageiro a história do golpe, o passageiro medita. Quer que eu abra a mala?, diz. Mas o golpe havia sido aprimorado. Uma mala cheia de roupas velhas, livros velhos, qualquer coisa, ou mesmo uma mala roubada de outra pessoa. O carro não é meu, se tomo prejuízo tenho eu mesmo que pagar ao dono, diz o motorista de modo extremamente gentil. Faz sentido, diz o passageiro enquanto abre a carteira, tome, vou deixar isso como garantia. Estica nas mãos uma nota de cem, mas o valor mal cobre a corrida até ali, até o aeroporto seriam pelo menos mais duas notas daquela. O passageiro estica então duas notas de cem. O motorista faz menção de pegá-las, olha para o prédio, depois para o passageiro através do retrovisor e recusa. Veja bem, eu não sei o que vai fazer lá dentro, não quero me meter em encrenca, o carro não é meu, desça e peça outro taxi depois, sim?

Não há telefones celulares, não há aplicativos. Pegar um taxi significa confiar na sorte e tudo isso acontece no meio da madrugada.

O passageiro sente o peso das horas. Olha para o relógio, olha para o prédio e depois para o motorista através do retrovisor. Então desça comigo, vai ser coisa rápida. O motorista acha isso absurdo. Como poderia deixar o carro parado naquele local deserto? Como poderia entrar num prédio com um desconhecido? Meu Deus, o que eu posso fazer?, diz o passageiro. O motorista repete o mesmo discurso, diz que o carro não é seu, que golpes são aplicados a toda hora. Os minutos passam, o taxímetro corre, os números dobram de tamanho, os carros passam pelo carro parado, o passageiro olha o relógio, para as notas de cem, para a mala, para os olhos do motorista pelo retrovisor. E então outra história começa a correr por baixo desta.

Um passageiro entra, indica o caminho, o motorista segue. Espere aqui, não vou demorar, diz o passageiro da história e o motorista, que a essa altura não tem tamanha desconfiança, aceita de bom grado. O passageiro sai, vai até um prédio e entra. Os minutos passam, o taxímetro corre, os números dobram de tamanho, os carros passam pelo carro parado, o motorista olha o relógio, busca instintivamente a presença do passageiro no retrovisor. Olha para o prédio, para as janelas apagadas àquela hora da noite. O motorista pensa em descer e bater na portaria, mas não sabe o número, não sabe nada. Pensa em ir embora, aceitar o destino, mas e se o passageiro voltar? O taxímetro corre, os números dobram de tamanho e o carro não é seu. Se levar algum prejuízo ele mesmo deverá pagar ao dono. Não há como burlar o taxímetro. Na verdade há um jeito, um jeito arriscado, que envolve ter que pedir favores a um tipo que não lhe agrada muito. Burlar o taxímetro é caro, o motorista pensa nisso enquanto liga o carro e olha para o prédio através do retrovisor.

Na outra história o passageiro entra. Seguem. Param. O passageiro diz: Espere aqui, não vou demorar, mas o motorista já sabe das coisas. O passageiro diz, Deixo aqui minha mala. O motorista pensa. Lembra da outra noite e inclui uma variante no roteiro. A mala está vazia. O passageiro abre a mala, ela está cheia, roupas dobradas, livros, um sapato, tudo parece em ordem. O passageiro desce. Os minutos passam, o taxímetro corre, os números dobram de tamanho, os carros passam pelo carro parado, o motorista olha o relógio, busca instintivamente a presença do passageiro através do retrovisor e observa a mala. O motorista desce, abre a porta do passageiro e abre a mala. Visto de perto não são as coisas do passageiro, roupas femininas metidas numa mala velha sem fecho. Um par de livros velhos, um sapato velho, coisas colhidas ao acaso. O motorista espera. Depois deixa a mala no meio fio e vai embora.

O passageiro entra. Seguem. Param. O motorista recusa tudo com total certeza. O passageiro estende um maço de notas e diz, Deixo aqui minha mala. O motorista precisa do dinheiro, aquela é sua única corrida da noite e o valor cobria o trajeto até ali e ainda mais. Não importa o que o passageiro vai fazer no prédio, a grana vale o risco. O passageiro sai, entra no prédio. O motorista conta as notas, é realmente muito dinheiro. Olha para o retrovisor e encontra a mala. A presença silenciosa da mala e do dinheiro. Muito dinheiro. O taxímetro, os minutos. O motorista sai, abre a porta do passageiro e tenta abrir a mala. Está trancada. Tenta levantá-la, mas o peso é absurdo. É uma mala grande. No prédio uma janela se ascende. O motorista olha para o dinheiro, para a mala, para o relógio. Nem cinco minutos se passaram, está tudo bem, a janela está acesa, ele logo estará de volta. Mas a mala e o dinheiro lhe dizem que há algo errado, sim, algo muito errado. Ali, naquela rua escura, no meio da madrugada, tanto dinheiro e uma mala, uma mala que não se move sobre o banco. Passa um carro de polícia. O motorista está parado na calçada com o dinheiro nas mãos, olhando fixamente para a janela acesa. O policial para. O que há?, diz o policial. Não há nada, estou aguardando um passageiro, diz o motorista. O policial olha para o motorista, para o dinheiro dobrado em sua mão, olha para o carro e dentro do carro a mala. O que há na mala? As sirenes mudas iluminam a fachada do prédio. O motorista abre a porta do passageiro e aguarda na calçada. Entrou naquele prédio, ali, naquela janela acesa. E quando olham novamente para o prédio já não há mais nenhuma janela acesa. Enquanto o policial tenta abrir a mala o motorista pensa que nos fundos do prédio deve haver uma saída que dá para uma rua vazia.

O curioso é que isso acontece apenas para o passageiro, que imagina uma história vivida pelo motorista onde ele mesmo, o passageiro, é o vilão. Não vamos afirmar que ele seja ou que não seja, mas quando pensamos que ele é um vilão, o quadro se torna duplamente estranho, pois ele imagina não apenas o seu crime mas também outras variantes desse crime, que vão desde do simples calote na corrida até a presença de uma mala com algo muito errado dentro. Então é correto pensar que em alguns desses cenários ele imagina a si mesmo tal como é, realizando uma tarefa que é típica dos vilões de sua categoria. Se o passageiro não é um vilão, então concluímos que ele tem lá certo dom para o assunto e que, apesar da pressa, consegue visualizar inúmeras versões de si mesmo e esse impasse é a chave para o seu destino.

Podemos ainda pensar que o motorista é o vilão. O passageiro estende na mão as notas de cem, desce, vai até o prédio onde precisa pegar algo imprescindível para sua viagem. O passageiro separou-se da esposa, ou do marido, e naquele prédio está o apartamento onde viveram por longos anos. Sobre um armário baixo há um porta-retratos, um livro, ou um objeto sentimental qualquer que vale bem mais que todas aquelas notas de cem. O passageiro abre a porta do apartamento e o cheiro do lugar lhe traz novas recordações. Ele anda mais uma vez pelo apartamento, senta-se no sofá e fecha os olhos. É isso mesmo? Pergunta para si mesmo, é isso mesmo? A mala está feita, a passagem comprada, irá começar uma nova vida em outro lugar, com outro nome talvez, vestindo outras roupas, andando de outro modo, bebendo bebidas diferentes, fumando outros tipos de cigarros. Abre os olhos e pensa em levar o pequeno objeto como recordação, mas talvez não seja a melhor ideia. Estará para sempre atado àquele lugar, àquele cheiro e àquelas memórias, que pulsam na noite como um coração de um animal assustado, como um braseiro. Desiste da ideia, apaga a luz e sai. Do outro lado da rua o carro se foi. Pensa em chamar a polícia, em gritar por socorro. Perdeu a mala, o dinheiro. A passagem continua no bolso, ainda pode pedir outro taxi, mas é madrugada, não há celulares nem aplicativos. Talvez seja isso que a vida queira lhe dizer, que fique, que volte ao apartamento, feche a porta e deite, feche os olhos e durma e no dia seguinte recomece do zero sem ter saído de fato do mesmo lugar.

O motorista foge, por medo da situação ou por pura vilania. De volta a parada dá a volta no banco do passageiro e observa a mala. A noite está paga com sobra. Abre a mala e encontra roupas novas, um sapato novo, um livro, um guia de uma cidade estrangeira. Volta para casa, deita na cama. Encontra no escuro a imagem do passageiro parado na calçada vazia sob a luz do poste. Nesse momento o passageiro e o motorista, cada qual em sua cama, olham para o teto e pensam: o que estou fazendo da minha vida? Dormir é distrair-se do mundo. De costas na cama, na sombra, o passageiro se sente leve, muito leve, foi bom que o motorista fosse embora, que levasse aquela mala e aqueles planos juvenis de ir morar em outro país. Aquele era o seu lugar, o seu ninho e a vida, afinal, é boa. Dorme rodeado por uma calma nunca sentida. O motorista agora sente o peso da mala e do dinheiro, nenhum dos dois lhe pertence e a presença da mala significa que, de certa forma, o destino do passageiro agora é o seu. Como um sarcófago a mala repousa no canto escuro do quarto e o motorista chora.

No dia seguinte o passageiro toma seu café no seu local favorito, conversa com conhecidos e resolve que precisa de novas roupas para começar uma nova vida. Vai até uma loja de roupas no centro, onde se vendem roupas de todos os tipos e escolhe aquelas que sempre quis usar. Volta caminhando até o prédio e ao colocar as sacolas no chão percebe do outro lado da rua a mala. Atravessa a rua buscando o carro e o motorista da noite anterior. Sobre a mala está um envelope grudado com fita transparente e dentro dele o dinheiro. O passageiro sente a presença dos bilhetes da viagem pulsando em seu bolso. O voo perdido poderia ser remarcado, o plano poderia ser refeito. A mala está ali. O dinheiro está ali. E do outro lado da rua o prédio. No sinal fechado, um taxi espera a luz verde. Ele e o motorista se olham. Se olham, se olham, se olham e o sinal logo, logo vai abrir.